terça-feira

Mas que Lisboa, pá?

Ponto de partida: sou lisboeta, nasci e cresci nesta cidade. Vivi Lisboa nos anos 80, 90 e no início dos 2000 — e, para mim, era essa Lisboa que tinha interesse. Sim, mesmo com a Curraleira, a Picheleira, o Casal Ventoso e o Intendente.

Vi de perto uma cidade ferida pela droga e pela prostituição — estudei em escolas localizadas em zonas problemáticas. Mas, ainda assim, era uma Lisboa dos lisboetas. De todos os que cá trabalhavam e estudavam. Era uma cidade de bairros, de pequenos negócios… e de pessoas na rua. Basta procurar no YouTube por Lisboa nos anos 70, 80 ou 90 para perceber exatamente isso.

Antes que alguém leia isto como um discurso anti-imigração, tire já essa ideia: adoro a multiculturalidade de Lisboa. Sempre fez parte da cidade, e sempre fará. O que verdadeiramente abomino são os fundos imobiliários e outros abutres com poder económico, que vão alegremente varrendo as pessoas das suas casas.

Prefiro mil vezes uma cidade modesta — com casas modestas, sim — mas onde as pessoas possam viver, ao invés de uma cidade maquilhada, recuperada, mas desenhada para carteiras que pouco têm de portuguesas.

Lisboa é agora a cidade dos horríveis tuk-tuks, dos cafés tipo Starbucks, das filas intermináveis (ai do nacional que queira, pacatamente, visitar um monumento ou comer um pastel de Belém), dos hostels e afins. Foram-se as lojas típicas, as pessoas típicas, o bairrismo.

E que delícia deve ser, para um turista, visitar Portugal para se afunilar no meio de outros turistas, comer comida pouco portuguesa (ou uma versão má e inflacionada da nossa comida), andar nesses tão “portugueses” tuk-tuks — que tantas vezes só trazem confusão — e tirar selfies com a hashtag #amazingportugal.

Há charme na imperfeição. Há beleza no que é vivido e autêntico. Por isso, sinceramente… podem enfiar a Rua Cor-de-Rosa no Cais do Sodré no cu.


quinta-feira

I Swear - uma lição sobre empatia

 


A Síndrome de Tourette é muitas vezes retratada como algo cómico, imprevisível ou até provocador. Basta uma breve passagem pelo TikTok para encontrarmos inúmeros vídeos que exploram esse lado mais leve — e, por vezes, superficial — da condição.

Mas há uma outra dimensão que se destaca menos: a dor, o desconforto e a frustração que muitas pessoas enfrentam em silêncio.

Felizmente, figuras públicas como Lewis Capaldi e Billie Eilish têm ajudado a trazer mais visibilidade e compreensão a esta realidade, contribuindo para quebrar estigmas.

Confesso que a Síndrome de Tourette me fascina — e foi essa curiosidade que me levou até o filme I Swear, que recomendo sem hesitar. A obra acompanha a história real de John Davidson, que vive com uma forma severa desta condição.

É um filme sensível, bem construído e com interpretações marcantes. Destaque para Robert Aramayo, cuja performance intensa lhe valeu vários prémios, incluindo um BAFTA de Melhor Ator.

Se tiverem duas horas disponíveis, vale muito a pena mergulhar nesta história.


segunda-feira

O Homem Que Era Quinta Feira


Adoro comprar quase tudo em segunda mão: roupa/ténis, livros, material fotográfico, etc. Além das compras online em plataformas como a vinted, gosto também de espreitar as feiras sociais e foi precisamente numa dessas feiras que encontrei este livro por €0.50. Confesso que foi o titulo que me chamou a atenção. Bom, lá o trouxe e acabei por lê-lo ao longo de algumas manhãs, no carro, enquanto fazia tempo para deixar o meu filho mais novo na escola. O livro é uma viagem muito curiosa e ainda bem que não sabia nada sobre ele, fiquei a ganhar. Para quem possa estar interessando, deixo o link para o goodreads AQUI.


terça-feira

Enquanto tudo desmorona

Hoje, enquanto tomava duche, pensava na solidão. Ou melhor: em como é assustadoramente fácil entrar em modo solidão.

Que o mundo se tornou um lugar pouco recomendável, isso já ninguém discute. Guerras, doenças globais, capitalismo selvagem — haverá outro? —, extrema-direita a crescer entre tantos outros pequenos horrores quotidianos. E, enquanto tudo parece desmoronar devagarinho, nós seguimos agarrados às redes sociais, à internet sempre à distância de um toque. Sedados. Dessensibilizados.

Os conspiracionistas dizem que este sempre foi o plano: manter a população distraída e anestesiada, no matter what. Talvez tenham razão em alguma coisa. Sei apenas que deixei de ter televisão em casa e isso ajudou-me. Também me tenho afastado mais do Instagram e do Facebook, e isso ajuda-me igualmente.

Ainda assim, é demasiado fácil começar a desgostar do mundo e das pessoas. Fácil perder o encantamento pelas coisas pequenas, pelo dia-a-dia, pela vida lá fora. E aí nasce um ciclo vicioso perigoso, daqueles silenciosos, que se instalam sem pedir licença.

Nos últimos anos, a minha vida ficou quase inteiramente centrada na família que construí e nos desafios que foram surgindo pelo caminho. Pelo meio, fui perdendo energia para o resto: para alimentar amizades, para manter proximidades, para cuidar das pessoas que, sem dar conta, fui deixando mais longe.

Agora sinto-me nesse equilíbrio difícil entre a vontade de recuperar amizades importantes, voltar a ter vida social, voltar a abrir espaço para os outros… e, ao mesmo tempo, lidar com este mundo cada vez mais feio cá fora.

Como é que se resiste ao cinismo sem acabar sozinho?


sexta-feira

Fotografia -

 

Rolleiflex 3.5F

Fotografia... como falar disto? A fotografia tem feito parte da minha vida, especialmente desde os mesmo 16 anos sensivelmente. Terei começado com uma máquina simples, point and shoot da Canon e depois passei a usar uma máquina que era do meu pai, uma Nikon EM que a minha irmã mais velha tinha mandado limpar. Lembro-me que adorava a espera e a incerteza como tinham ficado expostas as imagens (oposto do que temos hoje com o imediatismo do digital). Entretanto desanimado com a vida no ensino superior surge a oportunidade de fazer um curso de fotografia em Almada, com apoio da câmara municipal. Aqui aprendi as bases da fotografia e aprendi a fazer revelação e impressão em laboratório. Transformou a minha vida! Inscrevi-me no curso regular de fotografia no Ar.co com professores marcantes como o João Paulo Serafim ou José Soudo e onde tive colegas que ficaram amigos para a vida. Que sorte! Nos anos seguintes consegui trabalhar em diversas vertentes da fotografia, desde operador em laboratório fotográfico, venda de material ou fotógrafo propriamente dito. Foi muito importante ter feito este caminho até aqui. Mas... eu cheguei a um ponto em que a fotografia analógica - aquela que mais gosto - foi ficando de parte. Tinha as minhas máquinas a ganhar pó e o material de revelação ali parado. A corrente da vida levou-me durante demasiado tempo para  demasiado longe e eu não lutei muito, deixei-me ir. Só que agora, cerca de uns 10 anos depois, estou a voltar aos poucos ao analógico e estou tão contente. Sinto-me outra vez aquele jovem quando começou a tirar umas fotografias e a fascinar-se com todo o processo. A vida dá muitas voltas.

quinta-feira

Pai

Hoje sou pai de três filhos. Antes fui - e sou-  filho do Diamantino e órfão do Diamantino quando ele partiu tinha eu 16 anos. Três momentos e formas de viver o dia do pai. E muito importantes para o pai que sou.


                                                                                                        Pai a segurar-me  - 1981


Claro que sinto aquele como seria se ele aqui estivesse?


Ema, Fausto e Gabriel


Mas a verdade é que está e sempre esteve.

💓







sexta-feira

Oportunidade

Há alturas na vida em que nem sempre o que parece é. A gravidade de uma determinada situação não permite melhor esclarecimento e assim nasce uma nódoa negra no peito. O que ficou por dizer é uma espécie de âncora permanentemente arrastada no fundo do mar. Dá para seguir em frente mas sempre com aquele peso constante. E agora? A vida permite acasos felizes que permitem esclarecer o que ficou preso na garganta ou o tempo levanta muros intransponíveis? 


Sines


quarta-feira

Tona

Malta, estou vivo.

 A vida corre. Ou a vida escorre? Mas persisto... mesmo que de espaço a espaço. 

Pá, estou mais velho, tenho peso a mais, dores de costas, questões para resolver, preocupações infinitas e o cabrão do mundo resolve que afinal pode ser mais insuportável? Tento ficar à tona, portanto. Mas o pior lugar para se viver é nas cidades. Eu que nasci e vivi em plena praça do chile, quando agora tenho de ir regularmente a Lisboa por motivos médicos até me tremem as mãos. A frieza dos centros urbanos é terrível. Cansado disto. Não sou certamente o único a sentir-me deslocado neste planeta, certo? Como é que fazem para conseguir lidar melhor com tudo a descambar? Que magia é essa que vos permite manter a sanidade mental? Vou voltar ao interior. Será na zona onde já vivi mas com outra maturidade. Claro que não se resolve tudo com uma mudança para o interior mas é um (re)começo. E o resto, é o resto. 

Malta, estou vivo?


Spotify do meu bom velho amigo David Warren




terça-feira

Seis Pontos

Deixo passar muito tempo sem pôr aqui os pés e depois tenho várias coisas na cabeça que não dá bem para juntar numa única publicação. Entre o meu mundo e o mundo lá fora, isto está meio caótico. Mas tentemos... 


1. Acho que maioritariamente sinto-me enganado. Para contexto: nasci em 1981. Ora assim sendo, estou a viver no futuro e porra - foda-se se calhar caía melhor - não me apetece mais, obrigado. Portugal falhando em tantas coisas, tinha algumas que iam equilibrando isto: a saúde pública era razoável, eramos bastante pacatos e havia Sol. Se estas pequenas bolsas de esperança rebentam ficamos sem ar. Os mais otimistas dirão que vivemos tempos extraordinários, historicamente relevantes mas eu não encontro uma centelha de interesse. Assistir ao ressurgimento da idade das trevas não estava nos meus planos para o este futuro. 

2. O sobressalto no coração de quem tem 3 filhos e precisa ir lidando com as suas questões de saúde. Foda-se.

3. Os mais próximos sabem, outros não: depois de viver no interior de Portugal, numa aldeia no coração da Gardunha durante 5 anos, temos vivido os últimos 4 anos no concelho de Cascais. Este regresso foi necessário mas sonhamos com uma nova partida para a mesma zona da Gardunha ou proximidades. A vida na cidade é feia.

4. O declínio dos mais velhos é algo que nos bate sempre de frente. Sabemos que pode acontecer, que é provável que aconteça... mas chegando o momento é uma surpresa triste. E é preciso aprender a lidar com uma nova realidade.

5. Saúde mental. A vida tem momentos inquietantes e complexos que exigem força mental que nem sempre sabemos se temos. É, de facto, um trabalho nosso que não cessa. 

6. O amor. Entre desequilíbrios é a mão que nos segura e conforta. 


Bem-haja!


segunda-feira

Porra

(...)

"Sabe a sensação de que nunca essa porra vai dar certo?
É feita pra dar defeito
Pra ficar em aberto
A coisa de dar um jeito 
A edição de um decreto 
A mancha do preconceito 
A falta de um papo reto"

(...)

"Não Vai Dar Certo" - Celso Viáfora / Pedro Viáfora  

Este é um trecho de uma música que tem tudo. Tem verdade, o tom de desabafo que gosto, o cansaço que também partilho e tem ali a palavra "porra". Poderia ser outra palavra, poderia ser "merda" que o sentido se manteria mas o "porra" é mais certeiro. Soa a frustração mas esperançosa. Merda é mais definitivo, porra é mais estou a chegar ao meu limite, foda-se! Mas interesso-me. Esta música é brasileira, perfeitamente encaixada naquela realidade mas universal. Precisamos de estes pequenos grandes gritos, daqueles que nos sobem a tensão mas também a tesão. Pela vida, por todos. 

A música pode ser escutada (e vista) aqui 👉  Porra 👈 

quinta-feira

Inquietude

 Não sei ter a idade que tenho. Sou velho em muitas coisas, sou novo noutras tantas mas poucas vezes me encontro na minha idade. Quando vejo um parafuso tento resistir à ideia de o guardar "porque sei que um dia isto será útil". Luta difícil. Mas depois escuto-me a conversar com o meu velho amigo Luís e percebo que tenho 18 anos. Se calhar é assim mesmo e eu é que não sabia. Mas juro, 43 anos é que eu não tenho.

Mas que Lisboa, pá?

Ponto de partida: sou lisboeta, nasci e cresci nesta cidade. Vivi Lisboa nos anos 80, 90 e no início dos 2000 — e, para mim, era essa Lisboa...