quinta-feira

Quando o mundo deixou de ser espontâneo

 Que tipo de imagens ainda conseguimos fazer hoje que captem a verdade do instante?

 A fotografia de rua - pelo menos na tradição de um Cartier-Bresson, de uma Vivian Maier, de uma Helen Levitt - assentava no  instante decisivo que surge e desaparece, a criança a saltar uma poça, o olhar furtivo entre desconhecidos, a geometria acidental de corpos numa esquina. Parar para pedir autorização é, muitas vezes, matar a imagem antes de ela nascer. E, no entanto, a exigência ética e legal de proteger a imagem do outro - sobretudo de menores - tornou-se (legitimamente) mais forte.

Há aqui uma tensão que não se resolve com uma fórmula simples:

  • Direitos de personalidade - o retratado tem direito à sua imagem; a lei, em muitos países europeus, exige consentimento para publicação de rostos identificáveis.
  • Liberdade artística e documental - a fotografia de rua tem valor histórico, estético, jornalístico; restringi-la em excesso empobrece o registo visual do nosso tempo.
  • Desconfiança generalizada - depois de décadas de tabloidismo, de vigilância digital, de redes sociais que amplificam qualquer imagem fora de contexto, as pessoas protegem-se mais. E têm razões para isso.

Houve uma mudança cultural profunda. Nos anos 50 ou 60, a câmara ainda era um objeto relativamente raro no espaço público; havia uma confiança tácita de que o fotógrafo era testemunha, não ameaça. Hoje, qualquer telemóvel é uma câmara, qualquer imagem pode ser partilhada em segundos, descontextualizada, manipulada. A desconfiança não é paranoia - é uma adaptação racional a um ecossistema mediático que mudou radicalmente.

E há ainda outro fator: a própria consciência dos direitos individuais expandiu-se. Isso é, em si, um progresso. Mas todo o progresso tem custos laterais - e um deles é, de facto, uma certa contração do espaço público enquanto palco fotográfico. 

Os arquivos fotográficos do século XX mostram-nos como as pessoas realmente viviam - sem pose, sem filtro, sem encenação. Se hoje temos de desfocar rostos, de pedir autorizações prévias, de trabalhar apenas em contextos controlados, o registo que deixamos às gerações futuras será mais assético, mais editado, menos verdadeiro.

A fotografia documental do futuro terá de inventar novas linguagens para dizer a verdade sobre o mundo sem violar a dignidade de quem nele habita.

Raios!

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