Hoje, enquanto tomava duche, pensava na solidão. Ou melhor: em como é assustadoramente fácil entrar em modo solidão.
Que o mundo se tornou um lugar pouco recomendável, isso já ninguém discute. Guerras, doenças globais, capitalismo selvagem — haverá outro? —, extrema-direita a crescer entre tantos outros pequenos horrores quotidianos. E, enquanto tudo parece desmoronar devagarinho, nós seguimos agarrados às redes sociais, à internet sempre à distância de um toque. Sedados. Dessensibilizados.
Os conspiracionistas dizem que este sempre foi o plano: manter a população distraída e anestesiada, no matter what. Talvez tenham razão em alguma coisa. Sei apenas que deixei de ter televisão em casa e isso ajudou-me. Também me tenho afastado mais do Instagram e do Facebook, e isso ajuda-me igualmente.
Ainda assim, é demasiado fácil começar a desgostar do mundo e das pessoas. Fácil perder o encantamento pelas coisas pequenas, pelo dia-a-dia, pela vida lá fora. E aí nasce um ciclo vicioso perigoso, daqueles silenciosos, que se instalam sem pedir licença.
Nos últimos anos, a minha vida ficou quase inteiramente centrada na família que construí e nos desafios que foram surgindo pelo caminho. Pelo meio, fui perdendo energia para o resto: para alimentar amizades, para manter proximidades, para cuidar das pessoas que, sem dar conta, fui deixando mais longe.
Agora sinto-me nesse equilíbrio difícil entre a vontade de recuperar amizades importantes, voltar a ter vida social, voltar a abrir espaço para os outros… e, ao mesmo tempo, lidar com este mundo cada vez mais feio cá fora.
Como é que se resiste ao cinismo sem acabar sozinho?
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