A Varina Joaninha
Estamos em 1925, na cidade de Lisboa, mais concretamente em Alfama. Com a canastra à cabeça, num passo esvoaçante, avança Joaninha. Mais um dia em que parte para o trabalho, seguindo ligeira, observada por homens boquiabertos que miram as pernas morenas e o cabelo preto como a asa de um corvo. A sardinha saltita por cima da sua cabeça de boneca, e soa o pregão: “Olhá sardinha fresquinha, olhó carapau!” A voz forte de Joaninha contrasta, em absoluto, com o seu aspecto de leve bailarina.
É neste cenário sem sobressaltos que surge Romeu. Cigarro preso entre os lábios, cabelo cortado à escovinha, olhos azuis como o mar onde nadam os peixes de Joaninha. Dirige-se à nossa varina dizendo: “Ó flor, és demasiado bonita para andares com esse peso todo na cabeça! Eu até conheço alguém que te pode dar trabalho! Vem comigo e verás.” , rematou segurando o braço de Joaninha. Joaninha pára por momentos, fixa os belos olhos de Romeu, reflecte por uns breves instantes e... Romeu está no chão e de todos os lados surgem peixes; sardinhas fustigam-lhe o rosto, uma barbatana de pargo faz-lhe um corte numa perna, uma dourada espeta-se-lhe nas costelas e quando pensa que já não consegue aguentar mais... Zás!!!! Uma lula de tamanho considerável para fazer estragos atingiu-o na barriga, de imediato seguida pela canastra atirada com toda a fúria pelas belas mãos da rapariga.
“Velhaco, malandro! O que tu queres é meter-me nalguma caldeirada!” grita Joaninha.
Romeu, atónito com aquela reacção, sentado no chão, gagueja atrapalhado:
“Mas eu... eu... não era minha intenção... desculpa se não me soube explicar... mas...
Joaninha, agora surpresa com a sua própria atitude, pára e por instantes fica a olhar Romeu, não sabendo também ela explicar o que começa a sentir. Aqueles olhos azuis inundavam-na e sentiu-se corar. Não foi preciso muito tempo para Joaninha e Romeu serem conhecidos, em Alfama, como o casal mais apaixonado que Lisboa havia visto. Também não foi preciso muito para se casarem, no dia de Santo António, abençoados pelo Santo Padroeiro.
Romeu começou na faina, Joaninha vendia o peixe que ele apanhava todas as noites.
Certa madrugada, de chuva intensa e frio cortante, encontrava-se Joaninha a descer, mais uma vez as escadas em direcção ao Campo das Cebolas para ir buscar o peixe à lota que haveria de vender pela manhã. No regaço, como de costume, levava o dinheiro com que se haveria de aviar. Mas... desta feita não chegou ao destino.
Naquelas escadas sombrias, sob a chuva imensa que caía e no meio da escuridão, só se ouviam as bátegas de água e o bater das chinelas da varina Joaninha nas pedras negras da calçada. Depois, só ficou o silêncio, a chuva e o frio. Joaninha não mais desceu as escadas, nem mais se ouviu o pregão, nem houve memória de outro amor assim no bairro de Alfama. Ainda há quem diga, que em noites de temporal, junto ao arco das escadinhas, se ouve o bater das chinelas de Joaninha como um murmúrio.
Raquel Pinheiro
Sílvia Sousa
As alunas realizaram este conto no âmbito da cadeira de Técnicas de Comunicação e Expressão II, da Licenciatura em Secretariado e Comunicação Empresarial do ISLA-Lisboa
1 comentário:
Sim sr.ª!!!
São as maiores!!!
HAHAHAHAHAHAH :D
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