José Viana - Zé Cacilheiro

Era puto quando escutava o meu pai cantarolar esta música e de tanto ouvir acabei por fixar parte do refrão até aos dias de hoje. É através de detalhes destes que vivo intensamente a memória do meu pai. Para mim não se trata de as músicas serem bonitas ou não. Tão-pouco me interessa isso pois para mim são das músicas mais importantes do Mundo. Outra música que escutávamos frequentemente era o Fado 31 e algumas vezes cantávamos o refrão dessa no carro com ele. Sei hoje que essas músicas fazem parte de mim e nunca mas nunca as escuto sem pensar no meu pai. Fazem também parte dele. Como a expressão: pirisca. Como tantas outras coisas. Como eu. E cada vez mais reconheço-me nele, o que é bom mas também doloroso... Porra!

ZÉ CACILHEIRO


Quando eu era rapazote

Levei comigo no bote

Uma varina atrevida

Manobrei e gostei dela

E lá me atraquei a ela

P’ró resto da minha vida

Às vezes uma pessoa

A saudade não perdoa

Faz bater o coração

Mas tenho grande vaidade

Em viver a mocidade

Dentro desta geração


Refrão

Sou marinheiro

Deste velho cacilheiro

Dedicado companheiro

Pequeno berço do povo

E navegando

A idade foi chegando

O cabelo branqueando

Mas o Tejo é sempre novo


Todos moram numa rua

A que chamam sempre sua

Mas eu cá não os invejo

O meu bairro é sobre as águas

Que cantam as sua mágoas

E a minha rua é o Tejo

Certa noite de luar

Vinha eu a navegar

E de pé, junto da proa

Eu vi, ou então sonhei

Que os braços do Cristo-Rei

Estavam a abraçar Lisboa


Refrão

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